Redatora Criativa e Jornalista
Caos Como Moldura
Palavras escondidas para me encontrar
*Nota da autora: contém erros gramaticais e sentimentais
de repente você entende que pode ser o todo,
mas ainda doente
resolver ser tudo aquilo que não é
e fica sendo sem ver
nadando contra a maré.
e quando o mar se acalma,
o que resta é poesia.
ah, amor é realidade abstrata
ele dura o tempo que for
amor.
o meu tem forma e energia,
o meu tem amor.
ele é todas as poesias que já escrevi
e não vou à beira da ingenuidade,
ele é todas as poesias que escreverei.
ele ocupa tudo, porque foi motor pra que eu pudesse
querer
sonhar
ser.
ele me ensinou a questionar e responder.
com cuidado, ele foi amor para que eu pudesse crer.
e 'esquecer' não existe nas palavras que eu tenho para esse amor.
ele é simples,
é amor.
sinto como se estivesse enterrada em uma cova rasa e conseguisse ouvir toda vida que acontece acima do solo. sons, ruídos, chiados, barulhos, passos, músicas, vozes, gritos, gemidos, palmas, abraços, amassos, risadas, choro, uivos, tremor… meu corpo no escuro e em sua companhia a terra seca e o terror do silêncio.
quatorze de agosto de dois mil e vinte e dois, às dezenove horas e trinta e quanto minutos.
nos meus primeiros anos da adolescência quando lia Cecília, Drummond, Manoel e tantos outros que passeavam pela literatura e pela comunicação, me imaginava como eles e queria o dom das palavras, este que todos têm. mas eu tinha medo de alcançar esse lugar e não saber o que fazer quando chegasse lá. então, eu guardava esse desejo em um canto bonito da minha mente, uma gaveta ornamentada cheia de curvas e relevos feitos à mão.
eu não queria as palavras para satisfazer meu ego, mas para saborear e contar histórias. confesso que mais as minhas que as do mundo, mas histórias. e a poesia sai da gaveta sem eu perceber e me traz luz, vive em mim. os anos passam e encontro o jornalismo, minha ferramenta ganha-pão que me empurra para outra realidade. há lirismo quando narramos os fatos, mas ele são cruéis. então, esses também saem da gaveta e sem perceber me vejo, os meus desejos estão ali e preciso encará-los sem preparo. eu me tornava o que eu queria ser, semelhante aos que eu admirava, estava no trilho da minha essência.
caminhei e me perdi.
o medo sempre esteve presente. em casa não fui ensinada a ser corajosa e desejar aventura, era cercada de rancor e raiva. e, olha só, a vida é aventura a ser inventada e explorada. tentei ir à rua na busca dessa tal liberdade, mas topei um amontoado de violência e recuei. tentei voltar para os braços da proteção, minha família, mas eles não existiam. e neste momento a grande chave vira e sou engolida por uma porta que até hoje não sei nomear. ali eu inventava um calor, um amor, um abraço, uma palavra e uma história que nunca existiu para além das minhas ideias. ali eu inventei a vida e quem eu sou, esse ser que desfaço aos poucos e, ancorada pela terapia, levo para se descobrir outro neste mundo que nomeamos real.
***
escrevo este trecho na Biblioteca Roberto Santos, no 2º andar, sentada no fundo da última sala. esse espaço me lembra quem eu gostaria de ser. ele também tem a combinação perfeita do silêncio e de um ar refrescante que entra pelas frestas das janelas-parede. e mesmo cercada de tantas palavras, aqui eu consigo organizar os pensamentos e me escutar.
meus olhos veem vida
observam os corpos flutuarem nas ruas fugindo do chão escaldante,
acompanham os pés cansados desfilarem nas passarelas que conectam suas casas ao brutal capitalismo,
veem arte nas paredes onde a solidão e a fome se encostam,
querem tocar a ponta de cada arranhão-céu, são tantos com tantas vidas…
não tem verde onde meus olhos passam,
somente chumbo concreto fazendo-o voltar à realidade que voa discreta.
são paulo, 25 de julho de 2022
com pressa
corri e cheguei
a lugar nenhum…
que também é lugar.
se eu pudesse descrever, diria:
sinto como se estivesse no fundo do poço me contorcendo de dor, uma dor tão forte que a morte seria um alívio.
de repente me recobro de luz,
pensamentos tão lúcidos e ordenados que eu poderia ser confundida com Deus
e em minhas mãos um pergaminho com os segredos da vida.
me perco nos mundos inventados por mim.
desato os laços que me faziam forte
e esqueço o que é sentir.
o sangue não circula e
a carne adormece sem forças para seguir.
nesse estado não sou ninguém e me confundo com a vontade de permanecer assim, mudar ou partir.
diante das minhas ambições
sofro com fato de não conseguir ser o vento,
seguir contornando as dores e atravessando as frestas dos obstáculos.
mesmo sem saber decidi escrever em outra língua
para que eu pudesse chegar até você.
com tempo livre tenho espaço para pensar na vida. e, então, desejo de ter todos os trabalhos e passatempos do mundo.
Ela morava na superfície, mas decidiu partir. A força do tempo levou-a embora para uma casa de nome denso que não sei onde fica. Ela ainda vive e só está escondida esperando por um resgate que não sabe quando virá.
Ela tem medo de ser esquecida e a pressa da vida esmagar sua carne.
queria estar em muitos lugares
menos em mim.
parei de ler. os livros eram um refúgio onde eu me escondia para viver uma outra realidade. existiam movimentos que o meu corpo não era capaz de fazer na vida fora das páginas. mas, eu parei de ler. e tem sido tão amargo enfrentar o mundo que a fluidez da ficção tem me atormentado.
não tenho mais a capacidade de me envolver e mergulhar no mar escrito. me assusta e chega a doer, porque eu queria viver aqui. um lugar inventado é mais uma camada me mostrando que o sentido das coisas precisa ser construído, ele não cai do céu e não pode ser inventado com começo, meio e fim. viver é processo, há imprevistos e falhas no seu decorrer.
espero que algum dia a paixão pelo livros volte arder em mim. quero viver novamente no mundo fantástico e trazer um pouco da magia para essa dura realidade.
A dor me esmaga
E me apresenta o belo
Me mata de forma lenta para que eu possa ver o ar condensar.
Como ponta de lança, atravessa meu corpo, rasga minhas vísceras sem que nenhuma gota de sangue molhe o tapete.
Me vira do avesso, lambe meus restos e cospe no chão.
Faz a noite cair com chuva de estrelas,
O belo, a dor que contempla o belo.
E a lágrima é tinta que escreve e pinta a obra-prima.
cai em minhas mãos e se dissolve
sai da minha boca e evapora
não sou nada,
nada,
nem o vazio.
não consigo ter vida do lado de fora
e não há vida aqui.
uso as paredes como escudo,
mas sei que não são proteção,
elas se movem na direção da dor e esmagam toda e qualquer ato de viver.
sobrevivo
por enquanto.
[na vida]
ainda não sei o que fazer,
[pela vida]
só sei que passei sem perceber.
vivi muito,
mas só me recordo da dor.
me pergunte sobre o ódio e saberei dizer o
seu gosto, sua textura, a sua densidade e amargura.
não me pergunte sobre o amor.
só haverá amor
se alguém amar e
quando houver alguém para amar.
Gal tem cara de dia de semana com tempo ensolarado, céu azul brilhante
tem cara de alma feliz e alma perdida pisando na areia quente da praia
tem cara de gente sentada no escritório pensando no mundo lá fora
tem cara de criança brincando na rua no horário da escola.
Gal tem cara
Gal tem vida
Gal tem cara de vida
Gal convida.
tenho medo de tudo
inclusive de mim.
corpo estranho,
voz estranha,
toque seco e
sorriso vazio.
mente à deriva.
tenho medo de tudo
inclusive de mim.
fui dormir às 4h
depois de reler o seu corpo e os meus manuscritos.
lembrei quem nós éramos e
senti quem eu sou.
viver dói.
hoje tomei algumas pílulas,
porque viver dói.
os meus pensamentos
me fazem voar e
me aprisionam.
sou minha e do mundo,
não sou de ninguém?
ainda não sei e
não sei se um dia saberei.
a brisa fresca me pertence e
o vento traz notícias da realeza:
“escreveram teu nome no trono, aguardam-te para tomá-lo. não te demores”.
escutei quando nasci e fingi que esqueci.
um trono, veja só!
estou arrumando as malas para partir, sentar-me na imensidão da vida e ser quem eu devo ser:
eu.
quando você abre a dispensa e percebe que queria um abraço, e não se entupir de comida.
Deus fala comigo,
fala comigo, porque está em mim
eu sou Ele, Ele sou eu.
olho para o céu e as nuvens balançam despejando recados diretos e bem dados
eu escuto
escuto tudo
tudo em mim.
Ele diz “não”
e diz “sim”.
Ele vê
e me faz ver
tudo em mim.
Deus me deu o dom das palavras para que eu não me matasse.
Deus me deu o dom das palavras para que eu pudesse ver.
Deus me deu o dom das palavras para que eu pudesse viver.
soy increíble
soy mucho más de lo que ven mis ojos
soy mucho más de lo que escuchan mis oídos
soy mucho más de lo que siente mi piel.
soy.
domingo ensolarado
rua silenciosa,
só o som de poucas rodas na estrada,
isso tem cara de Djavan.
quando eu puder te contar
direi sobre as noites mal dormidas pensando em você,
direi sobre os sonhos distantes planejando nosso futuro,
do acordo mal feito pelo meu coração: sofrer em silêncio transbordando tudo de si ao desconhecido.
direi as conversas que tive sozinha, ouvindo suas respostas que acariciavam minha pele,
direi os ciúmes tolos, os sorrisos bobos, as mensagens escritas e apagadas antes de enviar.
quando eu puder te encontrar
serei
terei
amor
o amar.
quero que você olhe para esse rosto e lembre de todas as belas palavras que te escrevi.
quero que você olhe para esse rosto e esqueça todo amor que te ofereci.
quero que você olhe para esse rosto e veja o tanto que sou e o pouco que perdi.
quero que você olhe para esse rosto e sinta o adeus, sinta o que deixou ir.
olhe para esse rosto… sim, eu sou alguém sem ti.
o único sofrimento que não irá cessar é a idealização de um pai que nunca terei. porque ele escolheu não ser. eu me imagino dizendo todos os “te amo” que esse mundo já ouviu, dando todos os abraços que esse mundo já sentiu, sendo acolhida como um filho nos braços do seu pai. não terei e sofrerei até o fim.
toda vez que penso no amor que sinto pelo meu pai gostaria de estar em uma casa onde eu pudesse quebrar tudo. arremessar pratos, derrubar armários, martelar paredes e rasgar todos os tecidos que visse pela frente. esse amor é dolorido, não é recíproco e eu sinto tanto.
mais um dia escrevendo poesia para não morrer de sede de amor paterno. me afogo no mar vazio.
sinto que nunca mais serei feliz como um dia já fui. era uma felicidade simples, sem muitos olhares, ideias, valores e juízos. era minha felicidade. sinto falta daqueles dias, onde eu só era eu.
ela habita em mim,
ela nadou em mim e se perdeu.
agora, preciso dela
onde está ela?
será eu?
faz semanas que não estou em mim.
imagino, vejo, escuto e sinto em cenários onde não sou.
estou perdida e insisto em me encontrar nos caminhos que não são meus.
aonde vou parar?
quando vou parar?
faz semanas que tento me achar.
olho minhas fotos antigas e vejo algo
vejo alguém que não deveria existir:
um sorriso inóspito, um olhar vazio e perdido.
para quê existir? para quem existir?
***
a dor e a melancolia de existir decidem dar lugar à brisa fresca, ao aroma da bela flor.
e relaxo,
e descanso
e me desfaço em poesia.
eles estão partindo
e eu choro.
choro por uma saudade que já existe em vida
choro por um abraço que nunca foi dado
choro por um sorriso que nunca existiu
choro por um amor que foi negado
choro pela dor que ocupará o espaço vazio.
quero ser sua
só ser
carne nua.
quero te convidar para entrar e sair, quantas vezes quiser,
até onde der.
aonde a alma chegar,
da terra ao céu,
beijando a lua e se afogando no meu mar.
quero ser sua
até ser
só sua.
meu corpo é fechado
pro mundo
pras pessoas
pro amor.
meu corpo é fechado,
não há arma ou feitiço que me atravesse.
nunca ei de morrer pelas mãos alheias ou por um tropeço no destino…
quem vai me matar sou eu,
minha tristeza vai me findar.
medo de ver gente
medo de ser lida e
arder à primeira vista.
no dia que a dor passar deixarei a poesia.
não haverá palavra.
não serei rasa, mas
profunda como a vida tem que ser.
veja, serei profunda e não me afundarei.
a minha poesia vem do abismo, mas quando a dor passar não retornarei para lá.
não sonho mais
não sinto mais
só desejo o fim: acabar com a dor, a angústia e o desejo do fim.
sim, quero a vida: sonhar mais, sentir mais e acabar com o desejo do fim.
eu não existo
só me levanto para trabalhar e escrever uma poesia.
resta-me observar.
o outro é a minha janela do esperançar.
sou gente boa que sente maldade,
sou pessoa ruim que faz bondade.
protejam-se.
se te acontece algo, me acontece algo.
se está triste, choro
se está feliz, sorrio
se avança uma casa, comemoro
se precisa de uma escuta, meus ouvidos são seus.
tenho amor para te dar. todo amor que houver nessa vida.
você clareia meus pensamentos e enche esse coração vazio que carrego no peito.
sua presença me faz presente.
és de fato a argila que sedimenta meu chão. te amo, irmão.
um mundo tão grande e eu me escondendo dentro de mim…
mãe, desculpa, mas estou partindo.
preciso descansar, não aguento mais ficar aqui. gostaria de ser forte como você, mas não sou.
nunca fui forte, sempre fingi.
sempre fui frágil e me escondi.
parece cedo, pouco e jovem… não é, só findou-se a minha jornada.
obrigada por me receber. e mesmo no caos tive sorte de vir para você, o mar que me banhou com a vida.
não chore, pois sempre estarei inteira em você.
vou deixando rastros, porque se eu me for deixo resquícios de mim.
há quem queira, há quem se importe, há quem diga que sou sorte.
sou pote de grande porte,
não digo nada, guardo muito
sou um tanto em um espaço miúdo.
enfim, deixo resquícios de mim.
meus pensamentos me assustam
saem do córtex e invadem todo o meu corpo.
me contorço
o peito aperta
dor
lentamente meu coração é esmagado
dor
e o ar vai embora
dor
meus olhos ficam turvos
dor.
não sou mais nada
nada de mim
dor.
onde foram os pensamentos?
foi-se comigo
deixando apenas dor.
planejo minha morte e penso sobre o que ficará quando eu me for.
e entre tudo que restar,
mãe, a sua dor é o que prende aqui e me faz ficar.
não sou ninguém, não tenho o direito de invadir o seu ser e cavar um abismo.
sei que para você o meu fim não terá fim,
por isso fico, por você fico
mesmo eu não estando mais em mim.
odeio essa vida, porque ela é injusta
a gente não tem direito de sonhar, de sorrir, de viver, de existir.
Deus tem os seu escolhidos? Deus é seletivo? ou Deus não tem nada a ver com isso?
tem quem vomite dinheiro,
e tem quem vomite as tripas.
tem quem se esbanja em carne coberta de ouro,
e tem quem venda a própria carne pra garantir o almoço.
eu odeio essa vida, porque ela tirou o brilho do nosso olhar…
choro e pergunto pra Deus: eles estarão aqui se algum dia eu vingar?
Helô reflete a calma que os nossos olhos procuram e também é força da natureza.
Helô é aquela amizade tranquila que fazemos caminhando na rua.. e que ficam não importa para onde formos.
a poesia me salva todas as noites, mesmo eu cantando somente dor.
ela preenche a imensidão do meu vazio e faz escorrer toda angústia, todo medo, todo choro.
me esvazio e respiro com alívio
não sorrio, mas posso fechar os olhos e dormir.
eu sou poeta
– dos ruins –
se você não consegue me ler
não serve para mim,
não sinto em mim.
eu sou poeta
– dos ruins –
tudo sempre será sobre o que cabe me mim.
este não é um choro de tristeza,
é de saudade, de vontade
de viver.
da falta do abraço, do afago, do amasso, do cheiro,
de você.
eu não poderia sentir, mas senti
eu não poderia dizer, mas disse de todas as formas, sempre simples e cuidadosa.
mudei o meu rumo para seguir o seu, deixei que pessoas fossem para que você viesse e ficasse.
nem sempre é sorriso, mas sempre é bom.
você não sabe, mas a sua companhia me salvou de dias tristes, o seu carinho acariciou o meu coração quebrado, as suas palavras preencheram alguns vazios.
mesmo longe você esteve aqui, e às vezes passava tempo demais… tomando os meus pensamentos, invadindo os meus sonhos e despertando junto comigo.
eu não posso sentir, mas estou sentindo
eu não posso dizer, mas digo de todas as formas, sempre simples e amorosa.
eu não deveria escrever, mas estou te guardando em poesia.
esquece esse homem que não é seu,
desata esse laço que há muito tempo se perdeu.
não era pra ele ter chegado tão perto e te entrelaçado
sua vida não é um jogo ou um conto mal contado.
você está acima das nuvens e ele não está à sua altura,
então, voa, voa alto!
ele é como tantos outros, aqui tem aos montes e nenhum é peça cara.
por isso vá, quando sentir falta volte e pegue mais um pouco.
volte, mas não fique, pois ele não merece a sua tara
ele é vazio e você rara.
tudo o que ele tinha de mim foi-se.
libertei por mensagem o verbo em verdade.
ficou o que é meu, o que é daqui:
a minha lealdade,
a minha cumplicidade,
a minha fidelidade,
a minha pureza,
a minha destreza,
aquilo que sou e faço ser:
o bom para o bom nascer.
viver sem amor
viver sem amar e ser amado
é pior que morrer.
se liberte.
se liberte da dor, do sofrer, da tristeza, da vergonha.
deixa vir.
deixa vir o amor, o amor verdadeiro que você tem pra si
deixa entrar o desejo e ficar
deixa vir o sonhar ao acordar
deixa em ti a vontade de amanhecer, entardecer e se banhar no luar.
Deus nunca soltou a minha mão,
foi Ele que fez brotar essa fome de mundo.
e com Ele vou ter forças para saciar e me alimentar mais e de novo, e de novo, até o fim.
penso muito,
desejo muito,
sonho muito,
quero muito.
há muito em mim.
sairei do abismo mais forte, com mais pensamentos, desejos, sonhos e querer.
plantarei meus pés em terra firme, firme para fazer.
finalmente, eu consigo sentir o dia.
desabrochei em uma tarde ensolarada com poemas caindo do céu e, ao fundo, Liniker cantando a canção dos anjos.
em alguns instantes todos os sorrisos que já dei voltam aos meus lábios e me torno plena,
como uma folha que se desprende da árvore, vou, voo mas não caio no chão.
o céu já não é mais o meu limite, quero ir à Lua na superlua azul
perigeu: a Terra, a Lua e eu.
finalmente consigo acordar e saber quem eu sou: muito, muitas.
sou tantas que posso até escolher não ser nada, mas jamais voltarei a ser ninguém.
há pessoas que chegam e trazem consigo o inesperado.
ele trouxe a beleza de ser.
ele inundou o meu ser.
mas, inesperadamente, revelou que não sabia nadar,
morreu afogado na minha profundidade.
foi-se cedo, graças à Deus, antes de me matar.
cansei.
não tenho mais forças,
não tenho mais lágrimas,
não tenho mais corpo para suportar esse sofrer.
cansei e mudarei.
mesmo que ela venha como uma águia atrás de sua presa,
que venha para roubar-me o ser,
fugirei.
se ela seguir-me, eu corro.
não há possibilidade dela me pegar de novo.
não voltarei naquele quarto, onde sentei na beirada da cama e me desfiz, me arrastei ao chão e me contorci de uma dor que não sei como veio e nem como iria embora.
cansei de estar morta em vida.
viverei, estou viva.
acordei.
uso a poesia para revelar o que o meu sorriso esconde.
meu corpo me avisa,
o coração dispara,
a respiração acelera,
a mente não para e já desperta inquieta.
a intuição grita mais uma vez e vou atrás para ver o que não quero.
vejo.
e o desejo do fim se aproxima…
o nosso fim,
uma história que começou sem pé nem cabeça, onde eu fui sua, mas você não foi meu.
não haverá despedida,
só ida.
silenciosa
calma e
discreta.
vou como vim,
mas deixo em ti um pouco de mim.
você vai sentir falta.
nunca me viram e
nunca me admiraram.
eu nunca me vi e
nunca me admirei.
faz falta ser vista e
faz falta me ver.
a gente nasce sozinho, mas não vive sozinho.
demorei pra aprender
e me virei,
e me arrastei
pelos caminhos,
pelos espinhos
sem sentir
e sem destino…
vou.
por que temos tempo para amar se o mundo está nos destruindo?
por que ainda vemos o belo se a vida está se esvaindo?
por que escrevo sob o véu da imaginação, o olhar subjetivo, se não creio no que leio e o homem está me extinguindo?
porque continuo existindo.
porque continuo sentindo.
porque continuo respirando e indo.
pra sempre será?
o que foi?
foi paixão, arrebatadora
dois corações carentes e doentes querendo amar.
posso ser de qualquer um e não ser de ninguém.
sou tudo.
sou dos encontros não planejados e dos amassos inesperados.
sou dos homens que falam muito e não dizem nada,
dos quietos que no silêncio estão mudando o mundo.
sou das bocas e mãos que sabem o que fazer,
sou das mentes que imaginam o surreal.
eu sou minha
e vou
passarinha.
me sinto só.
estou rodeada de livros, listas de filmes, revistas físicas, cerâmica, tinta, pincel, caneta, papel, etcetera.
mas me sinto só.
falta gente: o olhar, o falar, o tocar e o sentir.
estou só.
dentro da minha cabeça
cacofonia de vento
que outrora era som de dormir.
há uma vida que acontece
mesmo quando tudo parece parado dentro de mim.
pouco se faz da mente inquieta em um corpo inerte.
os pensamentos engolem tudo, tudo o que olhos tocam, tudo o que a pele sente, tudo o que a mente mente.
por isso, prefiro partir, porque penso que sufocarei os pensamentos mesmo sabendo que já foram pensados e descartados dentro de mim.
sei que somos um, às vezes muitos, outras vezes nenhum.
não me escute. não se confunda. não sei o que escrevi.
o que faço aqui?
me diminuí
me abandonei,
agora choro só.
nem tudo que é bom é bom,
nem tudo que é ruim é ruim.
depende de você,
depende de mim,
depende de nós.
quem somos nós?
somos os nós do enlaço que somos nós?
os nós de nós.
surge a infinitude no momento que ele tira as mãos dos olhos e encontra os olhos dela.
o amor parou o tempo para ele ver o sorriso de Deus.
o ar mudou para ele se aninhar no perfume dela, no cheiro do cuidado, do carinho e da proteção.
ali, ele reviveu a sua memória mais doce e feliz.
no instante em que sua mãe o abraçou, o mundo se tornou um lugar gentil e sereno.
no desfazer do abraço e no reencontro dos olhos, eles registraram na linha do tempo que a vida é mais e vale a pena ser vivida.
espelho, espelho meu, existe eu em mim?
no fim, a minha dor é a falta de amor.
o peso da minha cruz é nunca ter recebido o afeto necessário para me proteger da maldade do mundo.
cresci descoberta
e até o fim carregarei esse fardo.
até o fim sentirei a falta de um abraço.
eu não tenho medo do fim, eu sinto muito por ainda ter que caminhar até ele.
a cada dia a solidão corrói um pouco de mim. estou desaparecendo…
morri.
não a morte da carne, mas do meu ser.
“Porque só há morte quando há esquecimento”
esqueci-me de mim e morri.
após noites longas sonhando com a vida em movimento, me acordo morta em busca do renascimento.
em prantos, choro o luto do meu esquecimento.
hoje me levanto,
me levanto todos os dias em busca do renascimento.
por que não quero ter filhos?
porque não conseguiria conviver com o fardo de perpetuar essa família.
o sangue ruim se finda em mim.
não haverá nenhum de nós para sofrer com a dor que nós provocamos e sentimos.
cortei o cabelo para não cortar os pulsos.
estou me despedindo aos poucos das poucas partes de mim.
estou deixando partir o corpo doente e rezando para um bom surgir.
me dando a devida desimportância, Deus me escolheu para eu ser eu e não a escolhida.
cortei o cabelo, porque meus pulsos já nasceram cortados pingando sangue e sobrevivendo, se arrastando entre vielas em busca da utopia.
desemboquei na distopia e segui, seguindo cega vendo tudo e não enxergando nada. sigo.
como é possível sentir a saudade da vida do outro?
sinto a saudade da minha mãe querendo ser feliz de novo,
sinto a saudade do meu pai quando lembra as andanças pela cidade tocando sua música ou parando no horário do almoço, pós empreitada de pintor, pra tirar uma foto em frente ao mar de Santos.
sinto a saudade dos meus irmãos quando pensam na infância, que mesmo pobre fez a gente ser quem é.
sinto saudade de um tanto que ficou no passado, só lá.
o tempo passou e a gente esqueceu de sorrir.
meu avô se foi há um dia. o pai do meu pai que eu queria que tivesse sido um bom pai para o meu ser pai.
e há duas semanas a escuridão tomou conta de mim. não o seu silêncio, mas o seu caos.
agora, eu choro querendo partir e choro por essa partida. e queria eu que as águas que escorrem no meu rosto passassem como uma forte correnteza levando embora a dor do meu pai.
me pergunto: “como é possível eu sofrer e chorar a dor desse homem que me causa dor?”. a gente não explica o amor, pois ele liberta, mas também é refém.
pai, tenho o meu amor e o meu abraço, espero que esse pouco aqueça sua alma durante essa tempestade de inverno.
Meu pior poema: sem riso, sem rima
Nos últimos meses, piorei.
A morte me visita constantemente,
E mesmo sendo um convite irresistível, aceno e digo que ainda não irei.
Meu pai, um dos principais responsáveis pelo meu desgraçamento mental, disse, em uma das nossas recentes discussões, que estou demorando para me matar.
Eu engoli essas palavras e todas as outras que já escrevi e escreverei sobre ele.
Quando morte vier me visitar agradecerei, mas pedirei que viesse um pouco mais tarde, pois agora vivo um luto.
Direi sobre a dor que é perder um pai em vida, e que me deixasse chorar por isso.
Outrora choro a minha ida.
não busco fama, busco o amor e meu caos organizado pela arte.
a morte me chama e não sou obrigada a ouvi-la, e esta é a parte cruel do desejo de partir. esta escolha é minha, somente minha. a escolha de alguém que não sabe. hoje, tenho a vida em minhas mãos e não sei o que fazer, porque esta escolha é minha, somente minha.
a vida é bela
nos confins do silêncio,
onde abrem-se as janelas
para os olhares do viver.
onde o campo verde abre espaço para a escuta,
onde o uivo do vento traz o dizer.
na aurora, tua vida vira folha e
corre o céu, o mar e o amanhecer.
Deus fala comigo pelo verbo de Fernando Pessoa.
acordo, vou ao escritório, sento-me à frente do livro sagrado e intuo boas energias.
abro em uma passagem aleatória e, então, vinde a mim a palavra.
sempre certeira, incessante.
corro para terminar o devocional com o impacto daquela mensagem.
com a palavra, agradeço ao deságuo de Pessoa.
se permitir ser amada te faz suportar alguns pesos do mundo.
mas, eu já não tenho mais forças para existir.
então, deixo aqui registrado: tentei ser, não fui e, se fui, me perdi.
se sou, deixo a ti um pedaço de mim.
com atenção, escuto falarem sobre viver com intensidade,
viver tudo o que há pra viver,
viver mentira,
viver verdade,
viver os limites, os sem limites
viver, viver, viver
mil vidas nesta vida.
e escondida, me pergunto:
aonde foi parar a minha vontade de viver?
sorrio
sem me preocupar,
sorrio.
no entanto, o brilho da vida tenta escapar pelos meus olhos
enrijeço, o mundo para e em 1 segundo vejo, sinto e sei de tudo
no mesmo instante já não sei de nada,
mas volto a respirar e a pequenina luz torna a brilhar.
vida minha
sozinha
vida minha
só
minha.
o cheiro da vida é diferente para cada um, e a minha vida tem cheiro de vanilla.
a vida tem sido apertada feito uma amarra bem dada, mas há o truque de assoprar e desatar o nó. então, tenho toda a sorte de vir nesta vida sentir a música e ter a poesia.




